No meu tempo, a gente namorava no portão; agora é no portal da internet. Eu acredito no amor à primeira vista, mas acho sempre bom lançar um segundo olhar. Com a internet, entramos numa nova fase de romance que possui suas próprias regras e princípios.
Vejam a estória da minha amiga Patrícia e de um paulista chamado Paulo: ela morava no Itaim; ele, no interior e começaram a escrever reclamando dos políticos, dos impostos e do sistema de saúde.Trocaram alguns e-mails, a coisa foi ficando mais pessoal, a saúde do romance foi melhorando. Por fim, se encontraram num shopping e, ao contrário do que às vezes acontece, a química funcionou; dois meses depois estavam vivendo
juntos. Pensam em se casar em Dezembro. Parece contos de fadas, mas aconteceu realmente.
Segundo as estatísticas, 74% dos americanos são viciados em namoros virtuais e pertencem a vários sites de relacionamentos. E, como tudo que é bom para os EEUU é bom para o Brasil, a moda do “nunca te vi, sempre te amei,”chegou aqui, também, com sucesso.
Se você é das que não acreditam no romance cibernético tente reavaliar seus conceitos. Os nossos pombinhos paulistas me disseram que já estavam apaixonados antes de se encontrarem e me disse ela, vê-lo pessoalmente foi como se ele tivesse acabado de chegar de uma viagem curta e que tinham estado juntos durante toda a vida. Pois este é, sem dúvida, o grande atrativo da rede; você conhece pessoas que seria muito difícil encontrar num barzinho ou no ambiente de trabalho; pessoas oriundas de culturas diferentes e idéias diversas.
Como as salas de bate-papo são geralmente temáticas, é fácil conhecer pessoas com interesses comuns. O cupido eletrônico chega à perfeição de estudar pessoas que sejam compatíveis umas com as outras; nada de atirar flechas ao acaso, como o nosso moleque fazia no meu tempo. Outra vantagem é que a comunicação on-line favorece a franqueza. Tendemos a ser mais honestos, mais íntimos. Apesar de quase nada saber sobre o físico daquela pessoa, conhecemos um pouco do seu interior, de como ela realmente é, o que pensa, como vive.
A atriz Rita Hayworth dizia que seus casamentos não davam certo porque os homens deitavam com Gilda e acordavam com ela; com o namoro virtual isso não acontece graças ao efeito hiperpessoal, pois se comunicar com alguém digitando palavras dá tempo às pessoas de construir respostas. Como estão liberadas da ditadura da aparência física, do timbre de voz e da elegância, elas podem se dar ao luxo de se concentrar no texto, isto é, no essencial.que é invisível para os olhos como ensina “o Pequeno Príncipe”, leitura obrigatória das misses dos sixties.
Sem conhecer fisicamente as pessoas, a gente pode formar impressões mais positivas sobre elas. Pois tudo
o que se vê é a personalidade do parceiro. Também somos inclinados a assumir riscos, porque sempre existe
a possibilidade de desaparecer se a situação fugir do controle; já maridos não podem ser deletados. Alguns
namorados também não, ficam lá torrando nossa paciência, enquanto podem. Sei que pode se mentir on-
line: o moreno arrebatador, musculoso e sarado, pode ser aquele velhinho barrigudo e broxa e a garota de cabelos ruivos e seios à La Sofia Loren, pode, na verdade ser uma bruxa, gorda e malfeita. -Ah,és tu ! Eras tão mais bonito no computador!
Seu amado imortal também pode estar jogando seu charme para outras e até, por comodismo, aproveitar as
mesmas frases com que galanteou antes, para cantar você e, às vezes, troca teu nome. Aí tá na hora de deletar o D.Juan, sem pena, nem remorsos. O sujeitinho vai “levar tábua”, como se dizia no meu tempo.
Então,o que acontece quando os amantes de Verona, digo, do PC, finalmente se encontram cara a cara?
Se o namoro decolar, em muitos casos fica a amizade, pois, conhecer uma pessoa ”pelo avesso”pode ser até preferível a conhecê-lo pelo direito. Um dos problemas do efeito hiperpessoal é estimula imaginação, causando frustrações no futuro; você preenche as lacunas das informações que lhe faltam com aquilo que gostaria de acreditar; mas o namoro à antiga também não era assim?! O príncipe não virava sapo?
O romance cibernético pode não dar certo; mas,com certeza, vai abrir seus horizontes e tornar sua vida mais
instigante.
Miriam de Sales Oliveira
Agradeço à amiga Miriam pela generosidade de disponibilizar seu texto para o blog.
